20060316

C:\>Tati, o visionário_


Quem se quiser atrever a trilhar o infindável percurso relacionado com o cinema pela primeira vez, terá que fazer paragens obrigatórias em títulos incontornáveis.
Não o fazendo, a voltar para casa e ao relatar a sua viagem, corre o risco de descrever uma jornada prazenteira, mas desprovida provavelmente da sua verdadeira essência: o toque, a marca de uma obra singular e única.
Playtime, de Jacques Tati, é um desses monumentos. É uma referência, em todos os sentidos.
Neste filme, Tati atinge um objectivo que ambicionava há já muito tempo, percurso natural e em crescendo nas obras anteriores: Jour de Fête, Les Vacances de Mr. Hulot e Mon Oncle. Esse mesmo objectivo tornou-se paradoxalmente a ascensão e a queda de Tati.
Playtime é, além de um grande filme, um filme grande: superprodução franco-italiana, cenários enormes, inúmeros actores e figurantes, filmado em 70 mm.
E grande é a visão de Tati que, em 1967, já satiriza e adivinha o futuro das sociedades modernas, ou pelo menos, a sua uniformização, sem entrar num discurso pessimista sobre a desumanização. Tati, pelo contrário, restitui o elemento humano a um contexto que ultrapassou esse mesmo elemento. Através da comédia, Tati adianta-se a qualquer crítico da globalização, antes sequer desta existir, pelo menos, como nós a conhecemos:
estruturada e catalogada, massificada e rotulada.
Provavelmente, Tati não a racionalizou, antes a sentiu e pressentiu. E antes que a mesma se desenvolva para outros níveis, Tati entende que está na hora de a subverter, ironizando a Vida Moderna.

Playtime é inovador em todos os sentidos. Como uma desconstrução de uma qualquer figura geométrica, o filme inicia-se em linhas rectas, em esquinas, em cubos e poliedros, em estrutura, em linha de montagem, em máquina.
Um grupo de turistas norte-americanos visita uma capital por dia, até que se apercebem que todas elas são iguais: nos edifícios, nas luzes, nas escadas, nas ruas, nas próprias pessoas.
Pelo meio, surge Mr. Hulot (ou Tati), pedra (essencial) na roda de engrenagem, que lentamente, e pela sua tentativa de adaptação ou, na falta desta, introduzirá o caos, a falha, o tropeção. Enfim, características humanas cujo progresso não tolera. O filme desenvolve-se no meio do perfeccionismo do moderno, no encanto do hi-tech. No entanto, as aparências iludem. Tudo é uma fachada, que ao invés de facilitar a vida do indivíduo, a complica pela incompatibilidade do racional, lógico e funcional com o desejo, a emoção, o erro humano.
Mr. Hulot, inocente e trapalhão como tantos outros Charlots, será o protagonista essencial para a destruição do sistematizado, do calculado, do esquematizado.
Esta mesma desestruturação revelar-se-á iminente no desenvolvimento do filme, passando de linhas rectas para linhas curvas, irregulares, orgânicas, como se o calor das relações humanas as tivesse tornado maleáveis. A própria tonalidade do filme passará gradualmente de tons cinzentos, neutros, uniformizados, para uma palete colorida, viva e diversa. As pessoas, até então adormecidas nos seus afazeres monocórdicos e controlados, acordam após uma noitada despoletada exactamente pelas falhas do conceito moderno social. Mr. Hulot, inconscientemente pelo meio, faz novos amigos.

Pode-se dizer que Playtime é uma obra-prima, não só pela crítica social que faz, mas também pela forma gráfica como é apresentado. Tati não deseja um filme narrado. Pelo contrário, utiliza todos os elementos visuais e sonoros, de forma a introduzir-nos num mundo que já é o nosso. Em Playtime, não há praticamente diálogos; há ruídos, toques, ritmos (o que não faria Tati se já houvessem telemóveis em 1967!). Todos estes elementos sonoros associados à parafernália de tecnologia e maquinetas, cubículos e corredores, elevadores e escadas-rolantes criam um contexto asséptico e esterilizado, perfeito para o desenrolar do desvanecimento de quaisquer laivos de inspiração e improviso humanos, no qual o próprio diálogo se torna mero acessório sonoro, tornando-se um murmurinho repetitivo e desprovido de qualquer sentido.

Após a estreia, o fracasso foi óbvio, tanto a nível de público e de críticas. O que contribuiu para o declínio da carreira de Tati.
Provavelmente, não estavam preparados para Playtime. E mesmo hoje, ainda não estarão. Mas não será este o destino habitual de uma obra-prima?

6 Comments:

Anonymous S0LO SHARE

Por acaso ainda não vi esse "Playtime" mas pelo teu texto, fiquei interessado :).

Abraço

3/17/2006 11:34:00 da manhã  
Blogger nuno SHARE

HERE'S JOHNNYYYYYY!

questão pertinente, sendo kubrick um dos autores que passou pelo mesmo. o que é certo é que também surgem obras-primas devidamente reconhecidas na sua época...

e quantos filmes e outras manifestações artísticas que hoje em dia vemos e ridicularizamos não serão obras-primas?

3/17/2006 11:59:00 da manhã  
Blogger Dr Extravagante SHARE

Lynch quando presidiu cannes, não o esqueceu. os génios reconhecem-se.

3/19/2006 12:16:00 da manhã  
Blogger wasted blues SHARE

Em arrumações estéticas no blog? ;)

Tenho cá em casa o pack Tati da Atalanta emprestado... mas admito que ainda não encontrei o mood certo para vê-los.

3/20/2006 08:15:00 da tarde  
Blogger Nm SHARE

mt bom sim sr;)

3/24/2006 12:45:00 da manhã  
Blogger Hugo Alves SHARE

Grande texto :)

4/11/2006 03:35:00 da manhã  

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