20060425

C:\>dialéctica muda_

Hwal (O Arco) é apenas o 4º filme (em 12) de Kim Ki-duk que vejo, mas não tenho dúvidas em afirmar que é um autor que ficará na história, apesar de lhe reconhecer até agora apenas uma verdadeira obra-prima, Bin-jip (Ferro 3). Bin-jip é mesmo o filme que mais me marcou neste início de século, seguido de Elephant (Van Sant), Requiem For a Dream (Aronofsky) e Caché (Haneke).

Hwal é integralmente passado num barco e retrata a história de um velho pescador que vive com uma jovem de 16 anos, afastada há 10 de qualquer outra realidade, com o intuito de a desposar quando cumpra os 17.

Fui com três tipos de expectativas, uma por cada filme que tinha visto: a expectativa utópica (Ferro 3); a angustiante e satisfatoriamente mórbida (O Bordel do Lago) e uma um pouco mais receosa (Primavera, Verão, Outono, Inverno... e Primavera). No final fiquei com um pouco de cada uma, mas num misto de prazer pelo reencontro com a identidade de um autor que se admira e a negativa sensação de repetição.

O título revela o adereço principal que o autor coloca em permanente tensão para disparar notas musicais e flechas, palavras e olhares, mas sobretudo para reflexionar sobre binómios comuns na sua obra: passado/futuro, tradicional/moderno, rural/urbano, mestre/aprendiz, culpa/redenção, bem/mal, físico/espiritual.

"Todos temos desejos e esperanças aos quais não damos voz, porque não podem expressar-se na época em que vivemos. (...) Quero viver em tensão como um arco até ao dia da minha morte" Kim Ki-duk


P.S. - Por curiosidade, também na rodagem esteve patente o minimalismo e sadismo de Kim Ki-duk ao colocar uma equipa de 50 pessoas durante 17 dias numa traineira sem as mínimas condições de conforto e higiene, mas estes mitos cumprem sempre bem o papel promocional...